Ultimamente, ela tem sonhado muito.
E não apenas à noite. Os sonhos vêm durante o dia, nos intervalos em que o corpo apaga e desperta novamente, como se a consciência estivesse sendo convocada a descer alguns andares.
Antes mesmo de se tornar psicanalista, ela já havia aprendido algo fundamental:
no sonho, tudo é parte de quem sonha.
Cada personagem, cada cenário, cada ação fala do momento atual da vida psíquica.
No primeiro sonho, a avó — hoje acamada, com o lado esquerdo do corpo paralisado — aparece andando, tomando banho, arrumando a própria cama. Diz, com firmeza serena, que agora é vida nova. Que o velho está sendo jogado fora para que o novo possa entrar.
A avó, que em vida foi acumuladora severa, surge exatamente no gesto oposto: desapegando, reorganizando, renascendo.
Algo ali se anuncia.
No sonho seguinte, ela caminha pelo centro da cidade e avista uma ponte. Sob essa ponte, uma entrada discreta: uma porta e, lá dentro, uma luz. Ao entrar, duas pessoas — desconhecidas — tentam barrá-la. Dizem que ela não pode seguir. Uma está próxima à porta; a outra, sentada como numa sala de espera.
Ela finge não ouvir.
E entra.
O lugar é antigo, belo, iluminado por uma luz amarelada. O pé-direito é alto, há muitas portas. Ela caminha lentamente, observando, como quem reconhece algo esquecido. Até ouvir uma discussão: dois homens conversam dentro de um quarto. Um deles é atleta, mas não anda — é um atleta paralímpico. O outro parece ajudá-lo. Não fica claro o vínculo entre eles, mas há ali esforço, tensão, cuidado.
Ela conversa com ambos, pergunta o que fazem ali. E, ao sair, o acompanhante lhe entrega um cachecol. Deseja sorte. Diz que não pode acompanhá-la.
Ela segue sozinha.
Do outro lado da ponte, uma nova porta se abre. Ao atravessá-la, surge um espaço amplo, que lembra uma grande estação — como a Union Station de Los Angeles. Muitos trens, muitas saídas. Ela observa os trens partindo e, curiosamente, não sente ansiedade. O sentimento é outro: estar no caminho.
Ali, tudo é possível. Ali, é ela quem decide.
Em outro momento do sonhar, ela caminha sozinha por uma rua. Tem a sensação de que há alguém atrás, mas não sente medo. Apenas atenção. Sabe, com certeza, que precisa mandar uma mensagem para Sheila. Para, olha ao redor, pega o celular e escreve: teve um insight sobre seu caminho — sobre a necessidade de descer fundo para poder chegar.
Por fim, um último sonho: está em um apartamento onde o Wi-Fi não funciona. Tentam de tudo. Até que, ao abrir uma pequena caixa, descobrem um bloqueador. Ao retirá-lo, a conexão volta. O irmão se irrita, diz que aquilo não deveria estar ali, que sem remover o bloqueio nada funciona — apenas algo isolado, nunca o todo.
Ela acorda com a sensação de que os sonhos não vieram confundir, mas orientar.
Como se o primeiro anunciasse a mudança.
O segundo mostrasse a travessia.
Pedem escuta.
Porque há momentos da vida em que o inconsciente não grita — ele conduz.
E quem se permite atravessar, descendo fundo, descobre que o caminho não está fora.
Está sendo sonhado.
@oquefreudfaria